Neverland m.clara1@hotmail.com não também não

sexta-feira, 29 de julho de 2016

5 de dezembro de 2015.

 

  Poderíamos ter ido a uma dezena de lugares, mas ele me trouxe para casa. Acho que também prefiro assim. Não apenas assistimos ao pôr do sol, como também sentimos os últimos raios solares tocarem nossas peles. O quarto se coloria de dourado, ainda assim, não conseguia desviar meus olhos dos dele. Não fora um fim de tarde ou uma noite tão diferente das outras, mas eu sentia uma especialidade ali.
  Acordo na madrugada. Meia noite e vinte três: me avisa o relógio digital em cima da cômoda. Está frio, mas prefiro deixar a janela aberta. Um vento gelado faz com que a pequena planta ao lado da cama balance suas folhas. Aconchego-me na cama e te observo dormir. Sinto-me em casa e tenho a impressão que não é só por uma questão de moradia. Estou segura aqui com você.
  Tudo o que eu desejava era lhe tocar, mas tenho medo que desperte. Ainda assim, encosto minhas mãos nas suas e meus lábios nos seus. Você parece sentir e se remexe um pouco na cama. Afasto-me. Assim, olhando-te, sinto-me ternamente calma.
  Estou certa disso. Eu quero dormir ao seu lado. Não apenas hoje ou semana que vem ou quando você não tiver mais nada para fazer. Quero dormir ao seu lado todos os dias da minha vida.

4 de dezembro de 2015.




 
  Aguardo os próximos clientes enfiando as unhas no material do copo descartável de café. Não sabia do que era feito, mas eu gostava muito de amassá-lo com meus dedos e unhas. Todo expediente eu separava um e o estragava por puro tédio.
  Meu celular vibra. Eu sei que não é você, mas sinto um tipo de esperança. Não é você.
  Como eu deveria agir quando você não está aqui? Eu nunca aprendo.
  Dispenso os serviços "especialmente preparados para mim" da operadora.
  Sirvo mais dois cafés. Escrevo os nomes dos clientes nos recipientes acompanhados de algum desenho que os clientes achavam fofo e atencioso. Ultimamente, eu nem sabia mais o que estava desenhando. Não havia um mínimo de carinho no meu no gesto. O sistema me fez assim. Eu me fiz assim. "Mel" e "Sophia". Forço um sorriso e entrego para as meninas que se esforçaram muito para parecerem suficientemente hipsters.
  Dou uma olhada pelas amplas janelas com persianas do estabelecimento e percebo um tom alaranjado de "início de fim de dia". Um cara com uma jaqueta de cor feia, um livro em baixo do braço e o cabelo sem corte entra na loja. É ele.
  - Hugo. - seu nome escapa quase automaticamente.
  A menina do caixa olha pra mim e sorri. Percebera que era a primeira vez na semana que eu levantava os olhos com um mínimo de interesse.
  - Oi, eu quero o café mais barato da casa, moça. - ele vem até o balcão.
  - Você sabe que tem que ir até o caixa primeiro. - digo, forçando-me para me manter séria. - Onde você esteve? Faz quase uma semana que não te vejo.
  - Três ou quatro dias, na verdade.
  "Cinco" pensei. Tamborilei os dedos no balcão e observei meu próprio gesto.
  - Você podia ter deixado uma mensagem ou ligado... - murmurei.
  - Eu deixei um bilhete. E você também podia ter me ligado ou deixado uma mensagem. - ele colocou sua mão sobre a minha. Eu não quero ser a culpada, mas acho que tenho minha parcela de culpa. Não é fácil um relacionamento com dois orgulhosos. Por que nós gostamos tanto de nos machucar?
  As mãos dele não eram muito grandes, mas eu gostava muito delas. Seu pulso aparecia sob o casaco, mostrando um início de tatuagem. Para ser sincera, eu não gostava das tatuagens dele. Tiro a minha mão debaixo da dele.
  - Eu estava ocupado na loja. - Hugo finalmente respondeu a pergunta.
  - Naquela droga de loja.
  - Naquela droga de loja onde a gente se conheceu. - retrucou.
  - Nós não nos conhecemos lá. Foi no ensino fundamental! Quantas vezes já te falei isso?
  - Éramos pessoas completamente diferentes.
  - Somos pessoas completamente diferentes bem agora. - usei de seus próprios argumentos.
  - Então a gente acabou de se conhecer nessa droga de cafeteria.
  No final, eu nunca conseguia ficar chateada com ele. Não importa quantas pontes eu destrua, quanta dor ele me traga, quantas rebeliões acontecerem. Isso é o que você ganha quando perde o controle dos seus sentimentos. Isso é o que você ganha...
  - Só faça seu pedido. - suspiro e dou um leve sorriso de lado, desses que dá pra contar quantos músculos se mexeram de tão pequeno.
  Instantes depois eu preparava seu "café barato". O nome que ele pedira para escrever no café era "Te vejo depois do expediente?". Desenho detalhadamente pequenas estrelas no recipiente e escrevo a resposta ao invés da pergunta. Lembro de um poema de Ferreira Gullar que gostamos. Entrego o pedido e ele sorri sutilmente ao ler.
"Digo sim."

quinta-feira, 28 de julho de 2016

31 de novembro de 2015.




 
  Eu não posso ir mais longe que isso. Não sozinha. Sou muito fraca para tal. Paro ali, mesmo sabendo que estava no meio do caminho. Está nublado e os prédio me parecem todos horrendos. As pessoas me são apenas silhuetas: todas vazias ou preenchidas com algo além da minha compreensão. As poucas que me olham pelas suas janelas como se eu fosse um quadro que não faz sentido algum. Sento-me em um desses bancos de ponto de ônibus buscando um pouco de equilíbrio. Mas não consigo, pois que me fizeras uma desequilibrada, me levara ao limite.
  Penso apenas em você, Hugo. Eu te quero tanto... Parece-me que todos os pensamentos que não são sobre você, deveriam ser destinados a você. Um diário meu para você. De Ana para Hugo. Eu realmente queria que você se interessasse por isso, mas sei que não. Mas meu maior desejo mesmo é você, Hugo. E você não está aqui.
  Não faz tanto tempo assim desde a última vez que nos vimos, mas os tempos são outros e não é assim tão difícil mantermos contato. Parece que você não se esforça, parece que não quer. E eu sinto tanto a sua falta e das coisas que costumávamos fazer que gasto todo o meu tempo pensando em você para ver se assim esse aperto no peito diminui, mas não adianta. O que está acontecendo?
  O clima atípico para a época do ano me faz tremer e me pergunto se você não fugiu para um lugar mais confortável. Sei que você gosta do tempo assim, mas talvez quisesse estar em outra parte do mundo. E se você quisesse isso, eu iria querer também. Eu viajaria os setes mares, esperaria nas fronteiras, daria a volta ao mundo com você, mas no momento não podemos nem atravessar a rua juntos.
  Ei, Hugo, se você pode escutar meus pensamentos, por favor, me encontre. Estou no meio do caminho. Você sabe onde me encontrar. Eu te amo de todas as maneiras e quero você perto de mim.
  Fecho os olhos. Um, dois, três, quatro, cinco. Olho para os horizontes e você não está em nenhum deles. Não pode me ouvir. Você não está aqui.
 

terça-feira, 26 de julho de 2016

30 de novembro de 2015.

vitrais:
“source: we heart it.
”


 
  Detesto quando ele acorda e vai embora. Faz com que eu me lembre que eu não tenho nada e não sou ninguém. Que pago algo que considero uma fortuna nesse cubículo que consideram um apartamento. E o pior: que ele me ajuda a pagar e nem se quer mora aqui. É um tiro no meu ego, mas é o que tenho.
  A luz esbranquiçada da manhã se esforça pra entrar pelas frestas da persiana, mas não chega a competir suficientemente com o abajur de luz laranja. Quando levanto da cama, tropeço e o derrubo. O quarto mal cabia a cama de casal que eu acho baixa demais e uma cômoda média para guardar minhas roupas, quase uma muda.
  Caminho até o banheiro e me olho no espelho. Imagino se Hugo se colocara ali antes de sair, se sorrira na frente daquela superfície refletora. Havia algo no raro sorriso dele...Sorrio e imagino nossos reflexos se encaixando. O reflexo dele estivera ali há algumas horas antes, e o meu estava ali agora. O tempo, mesmo que minimamente, separa as pessoas. Hugo não acredita no tempo. Logo, não existe pra ele. O tempo só pode machucar em quem acredita nele.
  Escovo os dentes e me enfio em baixo do chuveiro. A redonda e minúscula janela ilumina mal o cômodo, apesar de ser manhã. Quando enxáguo meu corpo, me sinto afundando. Era uma sensação parecida com o olhar de Hugo. Saio do chuveiro. Estava pensando demais nele. Talvez porque construíra um paraíso frágil, que no primeiro pôr do sol começava a ruir.
  Reparo que esqueci de pegar uma toalha limpa e deixo um rastro molhado por todo o caminho até ela. O vizinho do andar de baixo escuta rádio. Listen To Your Heart. Não era o que eu pretendia escutar essa manhã.
  Depois de me secar e encostar a toalha na janela do quarto, visto uma blusa listrada e uma calça jeans que eu usara no final de semana. Não é fácil se sentir um inútil no primeiro dia útil da semana.
  Olhando para o piso que tentava fracassadamente imitar madeira me pergunto quantos anos ele teria. Me pergunto o quão fracassada eu seria se fosse um piso tentando imitar madeira também.  É sempre por causa desses devaneios inúteis que eu me atraso. Não sei como ainda não fui demitida.
  Mesmo trabalhando em uma cafeteria mais ou menos, ainda tenho o hábito de tomar meu café em casa. Tenho a sensação que meu café em casa é muito melhor do que o da loja. Não sinto fome. Vejo um livro com uma capa muito feia em cima da mesinha redonda entre a sala e a cozinha. Um bilhete na capa dizia:
fui ali, ana.
 
 Sem letras maiúsculas, sem muito cuidado. Sem saber o por quê, eu gostava daquilo. Não do fato dele sempre sair sem avisar pra onde vai, quando volta. Mas do fato dele, ao menos, deixar um bilhete. Bilhete inútil, mas, ainda assim, um bilhete.
  Eu não sabia o que fazer a respeito dele. Eu não sabia o que fazer a respeito de nada.
  Joguei o livro dele na bolsa e com a mesma caneta que ele usara, escrevo em baixo:
to aqui, hugo.
 
 

Novo Desafio de Escrita

Imagem de leaves, nature, and hipster



  Há um tempo atrás fiz um longo desafio com o Ficwriters Facts e foi uma experiência muito divertida. Quando vi o desafio do blog Synestesia não pude deixar o desafio de lado. A temática é música e há vinte desafios, cada um com uma música, para estimular a sua escrita.
  Se futuramente vocês virem por aqui postagens com datas, é muito provável que se refiram a uma sequência narrativa baseada nesse desafio. Se forem participar e postar em algum lugar, lembrem-se de deixar o link nos comentários para que eu possa ver. Até.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Resenha de Homens Sem Mulheres de Haruki Murakami




 Desafiaram-me a ler uma obra de autor asiático, imediatamente lembrei-me de uma resenha de um dos livros de Haruki Murakami. Sem expectativas, recorri ao livro dele cujo nome me chamou mais a atenção: Homens Sem Mulheres.
  Nas sete histórias de ar melancólico e narrativa envolvente, temos como protagonistas não apenas homens, mas um personagem muito interessante: a ausência. Ausência de uma mulher. Mas não se engane, nem todos esses homens foram abandonados - embora quase todos traídos -, muitos deles ainda têm a mulher ao seu lado, mas ao lado não significa necessariamente junto. Nenhuma dessas mulheres entregou-se completamente.


    No último conto, em uma das frases mais interessantes, o narrador alega que muitas vezes perder uma mulher, é perder todas elas. Parece algo simples, mas algumas particularidades vividas nos fazem entender o quão legitimamente profunda é essa afirmação.
  A escrita, apesar de natural, parece completamente madura, fruto de autor hábil e experiente, o que me trouxe bastante interesse para com outras obras de Murakami.Uma excelente leitura para um fim de tarde, quando a lua começa a aparecer. Talvez com a sua companhia prateada o leitor não se sinta igualmente solitário.


OBS: Obrigada Ana por me incentivar a escrever essa resenha.

segunda-feira, 18 de julho de 2016

TBR da #MLdeFerias

Imagem de butterfly


  Procurei escolher livros que possam dar conta de mais de um desafio de uma vez e que também batessem de alguma forma com as duas últimas semanas temáticas da Maratona Literária de Inverno 2016. Há três desafios que eu não tenho como cumprir e que, infelizmente, vou ter que ignorar ou trapacear para conseguir, que são os desafios do livro que eu tinha que ter lido para o colégio, mas não li (sempre fui certinha com isso, mas é aquele ditado né), do livro que peguei emprestado e do livro sobre viagem no tempo. De resto, vamos lá.
  Com a leitura de As Duas Torres, do Tolkien, pretendo já eliminar o desafio do livro publicado antes do meu nascimento e que se passa em um lugar que eu sempre quis visitar (quem nunca desejou dar um passeio na Terra Média). Além de também encaixá-lo na Semana dos Outros Mundos da #MLI2016 .
  Com o término do andamento de Sinhá-Moça (que eu deveria ter lido na primeira semana da outra maratona), eu daria o check no livro que se passa no Brasil e no livro que um amigo tenha me recomendado (tão bem recomendado que me deu o livro).
  E, por fim, eliminando o  livro para ler em um dia, com uma palavra como título e HQ: Persépolis.
  Nada muito ambicioso, para compensar os flops anteriores. :) 

Resenha de O Menino do Pijama Listrado de John Boyne

O Menino do Pijama Listrado

  Breve resumo para quem realmente não sabe do que se trata: Bruno é filho de um comandante do exército nazista alemão e por conta do trabalho de seu pai, ele e sua família deve se mudar de Berlim para "Haja-Vista". Depois de dias de tédio, o menino resolve explorar perto da cerca que o separa de um grupo de "pijamas listrados". Do outro lado, vive Shmuel, o único amigo que encontrara desde que fora morar ali.
  Apesar do clima pesado no fundo da história, por ser contada na visão de uma criança que não entende nada do contexto geopolítico de sua época, apenas reproduzindo o que os adultos lhe mandam, o livro se mostra até bem mais leve do que imaginava, sendo muito fluido e rapidinho. A confusão que a criança o jovem rapaz faz com algumas palavras como Haja-Vista e Fúria é bastante interessante para o leitor que já conhece a história da Segunda Guerra Mundial e pode facilmente fazer as respectivas associações. Vi uma realidade muito grande nos comportamentos e pensamentos de Bruno e a aura infantil do livro me conquistou completamente.
  Tenho sempre um pouco de pré-conceitos com livros muito "mainstream" e esse foi um exemplo muito bom de como eu posso morder a língua.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

TBR da #MLI2016

Imagem de book


  Olá, creonças! Postagem atrasada sim como tudo que eu faço na vida, mas pelo menos postagem existente. Então, tentei escolher os livros de acordo com as semanas, mas também selecionei uns extras. Obviamente, é uma visão otimista, mas esse é o objetivo das TBR's, não é mesmo? Não vou alongar muito o post, até porque temos que colocar as leituras em dia. Enfim, vamos à TBR.



Semana 1: Encalhados

- Quincas Borba (Machado de Assis)
- Sinhá Moça (Maria Dezonne Pacheco Fernandes)


Semana 2: Hype

- O Menino do Pijama Listrado (John Boyne)


Semana 3: Outros Mundos

- As Duas Torres (Tolkien)
- O Retorno do Rei (Tolkien)


Semana 4: Diversidade

- Persepolis (Marjane Satrapi)


Extras:

- Os Miseráveis (Victor Hugo)
- Homens Sem Mulheres (Murakami)
- Alice no País do Quantum (Robert Gilmore)

- Mais alguns livros para a faculdade e outros projetos.


Espero que as minhas escolhas tenham te inspirado de alguma forma! A gente se vê pelos sprints e pelo Twitter! :)

Popular Posts

Atualizações

  • Born To Ultraviolence será postada agora no Wattpad.
  • Capítulo 2 de Crybaby no Wattpad.
  • The Moon Over Me finalizada no Nyah!
  • The Moon Over Me está também disponível no Social Spirit.
  • Another Dead e Clever foram excluídas.

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